O poder embriaga. Tanto quanto cega e isola. É
o que vemos acontecer no Oriente Médio, em
países onde a ditadura de meia dúzia
de senhores feudais preocupa o mundo. Tentam se manter
no poder há décadas, mas são
destronados pouco a pouco pelo povo, cansado de suas
arbitrariedades. Aliada à questão política,
uma onda de rejeição paralela se manifesta,
a islamofobia, ou seja, o preconceito ocidental pelo
crescimento da religião muçulmana, sempre
associada a ações de violência,
fanatismo e terrorismo.
O islamismo ou maometismo é uma das três
grandes religiões que pregam a fé num
Deus único, criador e pai de todos (o monoteísmo).
Como o cristianismo e o judaísmo (os israelitas),
sua doutrina está centrada no respeito e temor
a Deus, fonte de toda vida e mentor único do
ideal da fraternidade humana. Então por que
o mundo se alvoroça diante de um crescimento
religioso, que deveria contribuir com a Paz mundial?
A resposta não é simples, mas sua complexidade
se resume única e exclusivamente no mais antigo
ideal de qualquer humano: o sonho de poder. Está
lá, na fábula do nosso gênesis:
“Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes
dele (do fruto que lhe daria poderes), se abrirão
os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo
o bem e o mal” (Gn 3,5). A tentação
pelo poder foi a primeira grande derrocada humana.
Vinda da boca da serpente, a promessa de nos aproximarmos
dos poderes divinos é sem dúvidas a
maior das tentações humanas. Aliada
à religiosidade de um povo que se submete a
seus líderes como braço de um sistema
dominante, o mal que ocasionam torna-se feitos de
bravura, de heroísmo diante dum ideal comum.
Assim o poder cega até aqueles que dão
sustento a ele. Assim a humanidade vê o surgimento
de povos, clãs tribais e grupelhos que tudo
fazem pela manutenção do poder em suas
mãos. O isolamento que se impõem é
uma forma de não se contaminarem com ideias
e ideais que não sejam os seus. O triste é
usarem o nome de Deus para tanto.
No caso não é o Islã a fera acuada
da questão. Tanto lá como cá,
a verdade que envolve questões de fé
está obscurecida pela triste verdade das ambições
humanas. As contradições de Gaddafi,
- o líder líbio há 42 anos no
poder - não se manifestam na fé que
diz defender, mas nas armas das quais faz uso para
se manter. Disse Youssef-Qaradhawi, presidente da
União Internacional dos Sábios Muçulmanos:
“A verdade é que eu não tenho
nada a dizer a Gaddafi, porque nós devemos
nos dirigir apenas às pessoas razoáveis.
As pessoas não razoáveis não
devem ser abordadas. Ora, ele não é
razoável. Faz tempo que ele é louco”
(In Clóvis Rossi, FSP).
Então está dito. Com loucos não
se brinca. Nem se dá ouvidos. A verdade é
que o mundo árabe, temente a Deus, não
pode ser colocado na vala comum daqueles que se julgam
seus líderes apenas e porque alguns milhões
de petrodólares lhes dão sustentabilidade.
“Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”,
diz uma das mais objetivas máximas da fé
cristã. Que isso nos sirva de alerta, pois
que a embriagues do poder faz suas vítimas
tanto lá quanto cá. Questão religiosa
é pano de fundo para justificar muitas omissões
e a falta de coerência dos que se dizem tementes
a Deus.
E quando os poderosos desse mundo se sentem acuados,
a besta-fera latente em seus corações
mostra a que vieram. Esse é o perigo maior.
Acosse um cão e ele há de lhe mostrar
os dentes. Insulte um débil mental e ele lhe
atirará pedras. Por isso, o senso de preservação
nos ensina a domar a fera antes de acuá-la.
Mas o mundo age contrário a essa lógica:
alimenta e faz crescer a fera; depois foge dela. Cuidado,
pois, com as feras de tocaia, que rondam sua fé,
porque: “todo aquele que ouve a palavra do reino
e não lhe presta a atenção, vem
o maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração”
(Mt 13,19).
WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br
|