Uma das histórias bíblicas que mais
fascinou meu coração de criança
foi a do Dilúvio. Imaginava sempre o caos que
se abatera sobre a terra, o desespero dos que fugiam
das águas buscando salvação e
o pousar sereno da Arca sobre o pico do monte Ararat.
Noé e sua família estavam salvos. De
Deus ouviram uma promessa: “Nunca mais castigarei
a terra por causa dos homens”. Surgiu então
no céu um arco-íris radiante: “Eis
o sinal da aliança: sempre que cobrir o céu
com nuvens, aparecerá meu arco; e, vendo-o,
lembrar-me-ei da aliança que mantenho convosco”.
Acabo de vencer meu dilúvio. Um ataque cardíaco,
a proximidade e possibilidade concreta da morte, o
calvário das dores, da insegurança,
da angústia diante do caos que toma conta da
nossa vida, a incerteza do amanhã, tudo enfim
que cerca a existência de um enfermo de grandes
riscos e nos deixa tão somente uma única
certeza: só Deus para nos tirar dessa. Qualquer
tábua à deriva se torna um instrumento
precioso, a arca que possibilita uma travessia, uma
sobrevida. Quem nunca experimentou situações
semelhantes na vida, momentos de caos e incertezas?
Mas felizes os que descobriram nesses momentos a consistência
da Arca de Deus, a segurança não de
uma simples tábua de salvação,
mas de um veículo eficiente e seguro, que nos
permite vencer com serenidade as tormentas que rondam
nossas existências. Eis a preciosidade da Arca
da Aliança, da nova e eterna Aliança
entre Deus e os homens, sua Igreja!
Foi exatamente essa a minha grande arca. Nunca experimentara
tão concretamente o valor da vida comunitária,
a solidariedade, a força da oração!
Desde então, um sentimento de gratidão
e muita alegria tomou conta de minha existência,
pois somente quando descobrimos como são consistentes
e seguras as paredes da Igreja de Cristo, é
que descobrimos a verdade daquela sua afirmativa:
“As forças do Inferno não prevalecerão
sobre ela”. A cada nuvem em formação,
a cada trovoada, a cada raio ameaçador, lá
estava, o sinal belo e sereno da aliança que
Deus fez conosco, sua cruz! Assim, etapa por etapa,
fui percorrendo meu calvário, vencendo minha
via crucis com o amparo maternal da Igreja e de seus
sacramentos, em especial da Eucaristia que recebi
com frequência no leito de minhas dores. Ao
final, quando aproximava minha alta e uma nova perspectiva
de vida se abria para mim, pedi a Deus mais um sinal.
Inesperadamente, eis que entra na UTI padre Maurílio
Alves, velho amigo e companheiro de muitas batalhas
nessa jornada. Tomando-me pela mão, foi logo
dizendo: “Vim aqui para abençoar uma
pessoa de fé. Você acaba de experimentar
um pouco das dores do calvário de Cristo, um
mínimo das suas chagas; e isso é um
privilégio! Nada mais será como antes,
pois daqui você sairá compreendendo o
valor da humildade, do nada que somos diante de seus
mistérios, mas sobretudo da importância
que temos diante de seu Plano de Amor para conosco.
Você não será o mesmo, pois aprendeu
na cruz o valor que temos para Deus”... Assim,
abençoado e renovado por estas santas palavras,
tento fazer por merecê-las, depois de uma tempestade
que muitas vezes consideramos além de nossas
forças, mas que só a fé pode
nos mostrar sua insignificância. Porque, apesar
de nossas limitações, somos maiores
e mais poderosos que qualquer cataclismo da natureza
humana sobre nossa natureza divina. Somos filhos de
Deus. Isso nenhuma desventura, nenhuma fatalidade,
nenhum dilúvio contra nossa integridade física
ou espiritual poderá nos roubar.
Essa é a bonança dos que crêem.
Toda cruz vencida possui sabor de vida nova. Os raios
de sol mais belos e espetaculares à visão
humana são aqueles que nos proporcionam a visão
do arco-íris, o símbolo da aliança
que Deus fez conosco. No pico do Ararat, a montanha
das revelações no retorno à realidade,
está escrito: “Crescei e multiplicai-vos,
pois doravante não mais vos castigarei”.
Por tudo isso, eu voltei.
WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br
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